
Como tenho manifestado há algum tempo em palestras, em artigos, e em salas de aula, nós estamos vivendo uma Síndrome Macunaíma. De forma breve, Mário de Andrade escreveu seu “Macunaíma: o herói sem nenhum caráter” numa época (início do século XX) em que o Brasil estava saindo da fazenda e se dirigindo para as cidades. E isto implicou numa perda de valores e caracteres (rurais), e num ganho, gradual, de outros (eminentemente urbanos). Daí nosso herói sem caráter algum!
Hoje, com mais de 80% da população já vivendo nas cidades, nós estamos vivendo uma outra síndrome: a necessidade de evoluirmos na aquisição de novos valores e caracteres, que já não são urbano-nacionais, mas sim globais. Precisamos urgentemente formar o cidadão-global (obviamente sem perda daquilo que conforma nossa identidade cultural).
Infelizmente nosso sistema educacional não foi estruturado para essa necessidade! Por esta razão, hoje estamos nos dando conta que este sistema está à beira de um colapso: demos grande ênfase à quantidade/acesso (temos um ensino fundamental praticamente universalizado!), mas estamos muito aquém (pelos parâmetros internacionais) em termos de qualidade/conteúdo, em quase todos os níveis (só a pós-graduação do país é que pode ser considerada “um ponto fora da curva!”).
Uma grande parcela da responsabilidade deste hiato de qualidade no sistema educacional pode estar se concentrando na pobreza, ou cegueira cognitiva, das nossas políticas públicas. Para aquilatarmos o grau de distanciamento entre nossas necessidades e as nossas políticas públicas, vejamos apenas uma delas: a pomposamente denominada “Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior- PITCE”, criada em 2004, e que foi substituída (no dia 12/05/200
pela “nova política industrial” do atual governo federal, denominada “Política de Desenvolvimento Produtivo- PDP”.
A PITCE, que foi anunciada em 2004 pelo atual governo federal com muita propaganda, procurou escolher quatro setores da economia (fármacos, software, bens de capital e semicondutores) como prioritários. E o que aconteceu entre 2004 e o anúncio (também pomposo) da PDP? Praticamente nada, como reconheceu o próprio governo federal. Segundo publicou o jornalista Cristiano Romero, em sua coluna do jornal Valor Econômico de 20/02/2008 (intitulada “Os objetivos da nova política industrial”), reproduzindo informações de fonte oficial do governo federal:
“Há o reconhecimento de que a política anterior trouxe resultados muito limitados. Ela foi setorial e, dos setores escolhidos, havia três de ponta – fármacos/medicamentos, semicondutores e software). O avanço nessas áreas em quatro anos foi limitadíssimo, diz um ministro que está participando das discussões”.
E o que se pode dizer da PDP? Por enquanto nada, uma vez que até o momento da redação deste artigo ela não havia sido publicada! (no próximo artigo podemos comentar). Mas algo se pode apontar, em função das informações que têm saído na imprensa; esta “nova política industrial” padece de um mesmo “pecado” da sua antecessora (a PITCE): ambas concentram suas atenções praticamente para a indústria! Mas qual seria o problema em relação a isto? Ou seja, qual seria o problema da política estar voltada para a indústria?
A resposta é simples: o setor industrial do país não mais agrega valor à economia como agregava anteriormente, nem emprega mais pessoas como empregava no passado. Em termos de importância econômica, o setor que mais contribui para o PIB brasileiro, e o que mais emprega, é o setor de Serviços.
Segundo documento do Banco Central (Geração de Postos de Trabalho por Atividade Econômica, de 31 de julho de 2007), a publicação da nova série das Contas Nacionais por parte do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidenciou mudanças significativas na estrutura produtiva brasileira. Os dados atuais estimam um valor do PIB cerca de 10% superior ao anterior, com alterações relevantes na participação dos setores e dos componentes da demanda. O setor de serviços aparece com importância mais expressiva, o mesmo acontecendo com a estimativa de consumo das famílias. Essa nova estrutura da economia traz implicações sobre as inter-relações das variáveis macroeconômicas, em especial sobre a alocação da mão-de-obra. Na atual estrutura, a geração de novos postos de trabalho depende fundamentalmente do setor de serviços, que se mostrou muito mais produtivo (relação valor adicionado por trabalhador) e dinâmico com a nova série.
As principais mudanças relativas à participação dos setores no valor adicionado da economia podem ser observadas no gráfico abaixo, para o ano de 2004. Houve aumento da participação dos serviços em detrimento dos setores industrial e agropecuário. Essa nova estrutura mostra que o setor de serviços passou a ter participação de 63% no valor adicionado (10 p.p. acima da estimativa na série anterior), sendo seu comportamento, portanto, decisivo para o desempenho da economia nos próximos anos.
O setor de serviços não apenas é o maior da economia, mas inclui também atividades que são geralmente intensivas no fator trabalho. Ainda com base nos dados das contas nacionais, o setor de serviços e a atividade de comércio, entre 1997 e 2004, registraram crescimento da ocupação em ritmo superior ao setor industrial em todos os anos, com exceção de 2004. No caso do crescimento do valor adicionado, o setor industrial superou o crescimento dos serviços em quatro oportunidades (1997, 2000, 2003 e 2004). Observa-se que o setor de serviços e o comércio foram capazes de gerar novos postos de trabalho em todos os anos, ao contrário da indústria, que registrou dois anos de queda na ocupação.
Ou seja, se o setor de serviços é tão importante para a economia, por que o governo federal não anuncia uma Política Nacional de Serviços? Ou pelo menos, por que ele não anuncia algo concreto de fomento aos serviços associado às suas políticas industriais? Minha única conclusão se encaminha para a cegueira cognitiva!
Mas o mais grave não é a ausência de políticas para o setor de serviços. Mas grave é ausência de um sistema formativo/educacional compatível com a dimensão e importância que vem adquirindo o setor de serviços no mundo todo, bem como aqui no Brasil.
Se ao longo de todo o processo de industrialização do país foi possível criar um robusto Sistema S, de entidades voltadas à formação de jovens para trabalharem na nossa indústria, tais como o SENAI, SENAC, SENAR, SENAT e SECOOP, e de apoio ao empreendedor, (como o SEBRAE), e de serviços sociais (como o SESC, SESI, e SEST), por que ainda não fomos capazes de criar um sistema semelhante para responder aos desafios do desenvolvimento do setor que mais contribui para a nossa economia, como é o setor de serviços?
Na semana que vem apresentaremos o que estamos chamando SISTEMA S (o da Era dos Serviços), comentando um pouco a disputa (na minha opinião equivocada, por sofrer de Síndrome Macunaíma) na minha opinião do Sistema S da era industrial!O SISTEMA S (de SERVIÇOS) o desenvolvimento do setor que mais contribui para que esteja sendo travada nos dias atuais pelo Ministério da Educação e pela Confederação Nacional da Indústria em torno da receita do Sistema S (o da Era Industrial)!
José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco (http://jccavalcanti.wordpress.com)












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