“Se o grão não morrer debaixo da terra
não virá a espiga alegrar a mesa.
Se o grão resistir ao vento e à chuva
não terá o vinho, o vigor da uva.”
(A. Trevisan e Flávio Irala)
Lembro-me de uma cena do filme “Mr. Holland - Adorável Professor”, quando o protagonista (Richard Dreyfuss) pede ao presidente do conselho escolar que modifique a decisão de eliminar a disciplina de música do currículo. Ao ouvir do ex-aluno e superior que todo o possível havia sido feito para manter a disciplina, o velho professor protestou: “eu quero que você tente o impossível”.
O impressionante dessa situação é que ela sintetiza uma estranha construção humana: a criação de paredes imaginárias, que temos imensa dificuldade de romper. São os paradigmas que tanto se fala. O que poucos percebem é que essas referências são criadas a partir de princípios supervalorizados pela sociedade.
Memória, conhecimento, aprendizagem, hábitos e crenças são algumas das exigências sociais para o sucesso. Ao mesmo tempo, são esses valores que limitam o desenvolvimento humano. Eles obstruem o aperfeiçoamento, bloqueiam mudanças e, com freqüência, impedem a felicidade e realização das pessoas. Poderíamos chamá-los de valores secundários, que esconde as características elementares do ser humano.
Não deixar corromper
Em uma de suas poesias, Roberto Crema afirma que “enquanto eu pensar que quem me nutre é meu patrão, minha organização, eu vou me deixar corromper…” Mais do que um alerta, o poeta denuncia o quanto o homem está afastado de seus princípios intrínsecos, esquecendo suas origens.
Amor, força, paz, verdade, sabedoria, alegria e felicidade fazem parte dos valores primários do ser humano. Exagerando um pouco, podemos dizer que todos nós nascemos com essas referências. Somos gerados num ato de amor e, diferente dos demais habitantes da Terra, já nascemos dependentes das outras pessoas. Cidadãos do mundo, nosso primeiro grito de liberdade, ainda no parto, é uma corajosa demonstração de força e protesto pelo trauma da experiência inicial na nova vida.
Ainda muito jovens, construímos nossas verdades puras, numa sabedoria singular que nos dá alternativas para sobreviver entre nossos semelhantes. Procuramos a paz, sinônimo perfeito de harmonia. Tudo isso na busca da mais bela sinfonia de uma vida repleta de alegria e felicidade. Mas, afinal, o que tudo isso tem a ver com administração ecológica?
Roberto Crema nos dá outra pista: “…eu sei que quem me alimenta é o Universo…” Ora, se quem nos dá o sustento é o Universo, a quem devemos fidelidade? Que valores serão os mais importantes? Justificam-se as ações corporativas que prejudicam o desenvolvimento de nosso planeta?
“Se o grão não morrer debaixo da terra, não virá a espiga alegrar a mesa”. Se não modificarmos hábitos e crenças, se não nos dermos conta que estamos supervalorizando aspectos secundários no crescimento humano, a vida não brotará. Se o “grão resistir”, sequer haverá vinho. Os administradores do futuro devem mudar seus hábitos e crenças, gerando comportamentos voltados a preservar o homem, a sociedade e a natureza.
Sobre o autor: Paulo Ricardo Silva Ferreira, Educador Facilitador
Presidente do Instituto Eckart Desenvolvimento Humano e Organizacional. Doutorando em Ciências Empresariais pela Universidade de Leon/Espanha, administrador de empresas, curso de psicologia, pós-graduado em administração hospitalar. Professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação. Consultor em estratégia empresarial, desenvolvimento organizacional (DO), comportamento, mudança intervencionista e inteligência empresarial da Eckart Consultoria. Presidente da Fundação dos Administradores do Rio Grande do Sul. Palestrante nacional destacado pela abordagem multidimensional das organizações, abordando temas como valores humanos, ética, comportamento e desenvolvimento humano continuado e pensamento estratégico.












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